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'Born Again', o pacto sombrio do Hard Rock

     O remake de 'Nosferatu' está em cartaz nos cinemas, fazendo os góticos e metaleiros irem a loucura. Essa obsessão dos rockeiros pelo obscuro e pelo mau criam a subcultura e ajudam a manter o legado do ocultismo, o qual acaba se tornando um esteriótipo para os ouvintes do gênero. A parte mais interessante é que o diabólico não se prende apenas às músicas extremas, porque graças ao Black Sabbath em colaboração com Ian Gillan, é capaz de sentirmos na medida certa como o sombrio seria em contato com o hard rock.

Capa do álbum 'Born Again'

    O Born Again, disco que marca a decadência da banda tanto nos charts quanto no público, é resultado de todos os problemas que Tony Iommi. Sem Ronnie James Dio e Vinny Appice e com convites de vocalistas sendo recusados, é como se a junção da formação clássica com um dos maiores vocalistas de todos os tempos estivesse premeditada a acontecer em algum momento, principalmente por conta da amizade - e bebedeira - de Ian Gillan e Tony juntos.
    Gillan piorava em seu alcoolismo, assim como Iommi, e nenhum projeto se via com tanto sucesso quanto os de seus colegas do Purple; afinal, Blackmore e Glover emplacavam com Rainbow e seu desconhecido Joe Lynn Turner, e o Whitesnake junto a Jon Lord procurava o hit para chamar de seu.
Geezer, Ian, Tony e Bev
Formação da turnê 
    
    Apesar do estilo músical do álbum fosse mais leves que os demais lançados até então, ele não caiu muito bem no gosto dos fãs e da crítica por conta do grande problema conhecido por todos nós - a mixagem final do disco.
    Há quem diga que, após o término da mixagem final, Geezer Butler tenha entrado e aumentado suas linhas de baixo nas músicas. Não é algo confirmado, apenas uma especulação, pois tanto Gillan quando Iommi comentam sobre a divirgência das fitas master com o produto final. Tony descreve em sua biografia "Iron Man" outra suposta alternativa:
    “Quando chegou a hora de fazer a mixagem, Ian reproduziu o material alto demais. Supostamente, ele estourou assim alguns tweeters dos alto-falantes do estúdio. Fizemos a mixagem sem saber que haviam estourado e ninguém percebeu. Simplesmente achamos que o som estava meio esquisito, mas algo saiu muito errado em alguma fase entre a mixagem, a masterização e a prensagem do álbum. Não acompanhamos tudo e, aparentemente, quando testaram os discos, o som estava abafado demais.

Geezer, Ian, Bill e Tony
 (antes de Tony pedir para Ian se vestir feito gente)

    Apesar da reviravolta, o super-grupo conseguiu alcançar o 4º lugar nas paradas britânicas.

   Ao analisar de maneira crítica, o disco é muito bom. Nos faz sonhar com a remixagem que Iommi vêm lançando de toda a discografia do Sabbath. Abrindo com 'Thrased', um pop rock que, se não fosse pela distorção exagerada da mixagem, seria uma aposta para um sucesso comercial. É todo o composto de Bill, Geezer e Tony, com a força das cordas vocais mais guerreiras de todo o heavy metal de Ian Gillan.
    Isso para entrar no místico, sombrio e herege. 'Disturbing the Priest' é igual sentar no colo do capeta. Vemos que muitos discos de thrash metal e qualquer um que tente validar o capeta em suas músicas não são capazes de trazer a maestria dessas lendas no mesmo trabalho. Sem contar que a música é inspirada em um caso real que aconteceu durante a gravação do disco, quando a banda realmente irritou um padre por conta de seu som alto: 

"Redigiram um abaixo-assinado contra nós, que nos foi trazido pelo padre." - Tony Iommi.

    São várias as citações em que Iommi comenta sobre o disco em sua biografia, ressaltando sobre a composição de Gillan, onde sempre narra fatos do cotidiano, o que influenciou em faixas como 'Disturbing the Priest'.

    "Eu joguei a minha cópia para fora da janela do carro." - Ian Gillan.


    Mas ouso dizer que o lado B carrega as melhores faixas. Mesmo que o solo logo no início de 'Digital Bitch' seja uma tremenda porcaria, a música é um popzinho energético contagiante, um pouco mais leve do que 'Hot Line', que é uma boa trilha para academia. 

Encarte do CD

    As baladas, 'Born Again' e 'Keep It Warm' são agradáveis. A primeira sendo uma pegada mais setentista, arrastada, boa para curtir no seu próprio tempo, e a melosa 'Keep It Warm' para arrasar o coração dos mais fracos. Os interludes de 'The Dark' e 'Stonehenge' quase passam despercebidos por serem muito bem conectadas as suas faixas sucessoras, além de auxiliar na atmosfera mística em torno do álbum.
    Por mais que o disco não seja um ato revolucionário dentro do heavy metal como as demais fases do Sabbath, é inegável seu valor dentro do gênero. É um grande divisor de águas para aqueles que se permitem adentrar nas demais fases que bandas clássicas - como Purple e o próprio Black Sabbath - produziram em uma década não tão experimental quanto os anos 70.


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